Cerrado maranhense é impactado pelo consumo europeu de commodities
: Nossa organização participou de visitas de campo a povos e comunidades tradicionais do Maranhão impactados pelo agronegócio exportador de grãos e usuário intensivo de veneno. Acompanhados de nossos parceiros da CPT Maranhão, percorremos mais de 1500 quilômetros para ouvir as denúncias dos povos em primeira mão
Entre os dias 28 de novembro e 6 de dezembro de 2025, percorremos mais de 1.500 quilômetros entre os municípios de Mirador e Timbiras, no coração do Cerrado maranhense, ouvindo denúncias de povos e comunidades tradicionais sobre como o agronegócio brasileiro vem tentando, há décadas, expulsá-los de suas terras por meio de atentados com arma de fogo, assassinatos, incêndios criminosos, pulverização de agrotóxicos e perseguição jurídica. Foram sete dias e dezenas de depoimentos registrados de representantes de comunidades dos municípios de Mirador, Timbiras, Codó e São João do Sóter, todos no leste do Estado.
As atividades de escuta territorial fazem parte de um monitoramento coordenado por nossas parceiras e parceiros da Comissão Pastoral da Terra (CPT), da regional Maranhão.
Petições e incidência internacional
O consumo de commodities como soja e milho pelos países da União Europeia está diretamente relacionado às violências relatadas pelas comunidades que ouvi ao longo dos dias em que passei no Maranhão. Muitos dos fazendeiros que exportam grãos têm suas lavouras sobrepostas a territórios tradicionais ocupados há centenas de anos pelas famílias. Eles se apropriam das terras utilizando documentos falsos, e contam com a conivência de donos de cartórios, políticos e juízes que encobrem e até cometem os crimes. Segundo vários dos depoimentos, muitos desses fazendeiros que se apropriaram das terras são, eles mesmos, juízes, políticos e donos de cartório.
O fato de muitos dos crimes denunciados serem cometidos por pessoas que deveriam combatê-los torna tudo mais difícil e perigoso para as comunidades, que ficam sem ter para quem denunciar as violências de que são vítimas. Para se ter uma ideia, em uma das comunidades visitadas, pude observar dia e noite o tráfego de madeiras retiradas ilegalmente dentro da mata. O crime já foi denunciado às autoridades locais, mas os criminosos contam com o apoio de políticos e policiais da região.
Por isso Salve a Floresta tornou-se aliada da CPT nesta atividade de monitoramento. Nossos apoiadores e apoiadoras na Europa podem ajudar a amplificar a voz dessas comunidades assinando petições e divulgando processos de incidência internacional que planejaremos para os próximos meses. Um importante objetivo das petições e ações de incidência é ressaltar a responsabilidade de governos e consumidores europeus nas violações de direitos que acontecem a milhares de quilômetros de distância, nas comunidades que visitamos.
Região de expansão do agronegócio
Todas essas comunidades estão inseridas em uma região conhecida como MATOPIBA. A palavra é formada pelas duas primeiras letras dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, e indica uma região delimitada oficialmente pelo governo brasileiro em 2015 para a expansão do agronegócio sobre os biomas Cerrado, Amazônia e Caatinga. Trata-se de um projeto de expansão que beneficia empresas privadas de produção de commodities com bilhões de reais em recursos públicos, e também recursos internacionais, incluindo agências de fomento da Europa.
Além do dinheiro, as estratégias de apoio do governo federal e governos estaduais e municipais para empresas inseridas no MATOPIBA passam pelas mudanças de legislação que beneficiam o agronegócio, sejam leis que facilitam a apropriação de territórios tradicionais por empresas privadas, ou leis que tornam a aplicação de agrotóxicos cada vez mais permissiva.
É inadmissível que governos destinem recursos púbicos e façam leis que prejudiquem seus cidadãos mais vulneráveis, mas assim tem acontecido no Brasil nos últimos 40 anos, pelo menos, nesta região cobiçada pelo agronegócio pela fartura de terras férteis e de água.
O Cerrado é conhecido como o berço das águas no Brasil. Ele abriga os dois principais aquíferos do país, o Guarani e o Urucuia-Bambuí, e também as nascentes de importantes rios do Brasil e da América do Sul. Portanto, sem o Cerrado e suas águas, outros biomas, como a Amazônia, estão sob risco.
Agrotóxicos como armas químicas
Um agravante nos processos de violência contra as comunidades que pude observar é o uso dos agrotóxicos como verdadeiras armas químicas, destinadas a impossibilitar a vida dos povos e comunidades em seus territórios.
Ouvi dezenas de relatos que se repetiam nas diferentes comunidades, algumas a centenas de quilômetros de distância umas das outras: o veneno é lançado por aviões e drones sobre as roças das pessoas, próximo de rios, escolas, e até sobre as casas e os corpos delas. As plantações são perdidas, as águas contaminadas. Há relatos de dores de cabeça crônicas, vômitos, enjoos, falta de ar, problemas de pele crônicos, com feridas dolorosas que nunca saram. Estes são os efeitos da intoxicação pelo veneno usado nas lavouras de grãos.
Perguntei aos depoentes se eles sabiam quais agrotóxicos eram utilizados, e as respostas se repetiram em todas as comunidades: não é possível saber porque os galões encontrados estão sempre sem rótulos, retirados pelos violadores para ocultar os detalhes das violências cometidas.
Aqui também o papel da Europa tem sido crucial: muitos dos agrotóxicos utilizados no Brasil são produzidos por empresas europeias. O uso de alguns deles na Europa está proibido pela sua toxicidade e comprovada causa de doenças, como câncer e malformações congênitas.
Salve a Floresta continuará participando no monitoramento das violências como aliado das comunidades, seja na coleta de depoimentos, na produção de relatórios e apresentação de informações sobre o contexto geopolítico da exploração de commodities, na realização de petições e processos de incidência internacional, além de apoio financeiro para a realização das atividades nos territórios.