No aniversário de 40 anos de Salve a Floresta, organizações brasileiras denunciam impactos da soja
No seu trabalho com parceiros no Brasil, principalmente no estado do Maranhão, Salve a Floresta aponta a urgência de denunciar a pulverização de pesticidas proibidos na Europa sobre comunidades, pessoas, florestas e águas. Essa injustiça ocorre no contexto da expansão da monocultura da soja para exportação.
Salve a Floresta e suas organizações parceiras do Brasil planejaram uma viagem de incidência de 11 dias a Alemanha e Suíça para denunciar a parlamentares, organizações e opinião pública uma série de violações de direitos.
“Existe uma relação direta entre o consumo de soja e de outras commodities pelos países da Europa e o adoecimento de povos e comunidades tradicionais, além da destruição das águas e dos frutos dos territórios”, foi a mensagem comum levada pela Rede de Agroecologia do Maranhão (Rama), Comissão Pastoral da Terra Regional Maranhão (CPT-MA), Movimento Quilombola do Maranhão (Moquibom), Coletivo de Mulheres Trabalhadoras Rurais (CMTR) e Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.
A agenda de reuniões com organizações da sociedade civil e com parlamentares, seminários e a entrega de denúncias a órgãos oficiais da Alemanha e Suíça foram pensados como estratégias de incidência política e jurídica complementares aos trabalhos dessas organizações já apoiados por Salve a Floresta em territórios tradicionais no Maranhão.
A primeira atividade oficial da delegação em solo europeu foi no evento “Venha conosco para a Floresta Tropical”, promovido por Salve a Floresta/Rettet den Regenwald no centro cultural Spore House, em Berlim, em celebração aos 40 anos da organização alemã. Os membros da comitiva brasileira apresentaram relatos e dados sobre os impactos do uso de agrotóxicos e a devastação socioambiental no Cerrado e na Amazônia maranhense. Dois documentários curtos e sobre o tema foram apresentados ao público que compareceu ao evento. Além disso, duas cartilhas com dados e fotos foram distribuídas na ocasião. Os vídeos e as cartilhas podem ser acessados aqui.
Nos demais dias, o grupo participou de reuniões no Parlamento Alemão, onde se reuniu com a deputada Lisa Badum e com a assessoria dos congressistas Karl Bär, Harald Ebner, Dr. Jan Niclas Gesenhues, Marcel Bauer e Ina Latendorf, dos partidos Verde e Die Linke. A comitiva brasileira apresentou demandas concretas ao governo alemão, destacando a responsabilidade do país na exportação de agrotóxicos para o Brasil – muitos dos quais proibidos ou banidos na União Europeia – e na importação de soja brasileira. “Entre as reivindicações está a interrupção imediata do Programa Aliança pela Soja Sustentável, que promove a expansão do cultivo da soja no Cerrado maranhense e é financiado pelo Ministério para Cooperação e Desenvolvimento da Alemanha. Também foi solicitada a suspensão de qualquer certificação de ‘soja sustentável’ na região, além da proibição da exportação de agrotóxicos banidos na Europa”, detalhou Ariana Gomes, representante da Rama.
As reuniões de incidência foram respaldadas pela distribuição de um documento de dez páginas com dados sistematizados. O documento pode ser baixado aqui.
Outras agendas importantes em Berlim foram reuniões com entidades de direitos humanos e ambientais que usam a litigância estratégica em suas atividades, como a Client Earth, que combate a crise climática, e a European Center for Constitutional and Human Rights ECCHR, em casos de violações de direitos socioambientais.
O Centro de Pesquisa e Documentação Chile-América Latina, uma das mais antigas organizações no movimento de solidariedade à América Latina, fundada em 1974 com foco no intercâmbio político e cultural entre organizações progressistas alemãs e latino-americanas para a defesa de direitos humanos e contra a repressão e impunidade coordenou uma reunião com organizações que trabalham, de modo transversal, vários dos temas apresentados pela delegação brasileira.
Os temas principais das conversas foram a guerra química no Maranhão, a expansão da produção da soja para exportação, a responsabilidade do governo alemão no processo de ecogenocídio do Cerrado maranhense e o duplo padrão gerado quando pesticidas proibidos na Europa são exportados ao Brasil. Além disso, foram discutidas formas possíveis de cooperação e ação entre as organizações da delegação brasileira com as organizações e movimentos alemães no combate às violações socioambientais em curso.
Na segunda metade da agenda de incidência, a delegação brasileira participou em Genebra, na Suíça, de agendas bilaterais com oficiais da ONU e de um evento paralelo à 63ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos no Palácio das Nações. O evento, organizado pelo Instituto Brasileiro de Direitos Humanos (IBDH), realizou um painel com o título “Uso de agrotóxicos e violações de direitos humanos no Brasil”.