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Pesquisa
Mulheres em fila carregam cestos com coco babaçu em meio à mata
Agroecologia: as quebradeiras de coco babaçu fazem a coleta, quebra e processamento da amêndoa, entrecasca e casca de maneira tradicional (© Yndara Vasques)

Agroecologia na Amazônia e no Cerrado para combater os agrotóxicos

O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, e o Maranhão é o estado brasileiro onde o uso de pesticidas mais cresce. Entre 2013 e 2022, a pulverização de veneno pelo agronegócio no estado aumentou quase 200%, tornando o Maranhão o segundo maior consumidor de pesticidas entre todos os estados do nordeste naquele período.

Visão geral do projeto

Tema do projetoHabitats

Objetivo do projeto Promover a agroecologia; Acabar com o uso de pesticidas; Defender os direitos humanos

Atividades Formação en agroecologia; pesquisa; incidência política; defensa jurídica


O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, e o Maranhão é o estado brasileiro onde o uso de pesticidas mais cresce. Entre 2013 e 2022, a pulverização de veneno pelo agronegócio no estado aumentou quase 200%, tornando o Maranhão o segundo maior consumidor de pesticidas entre todos os estados do nordeste naquele período. 

Onça-pintada sentada no cerrado brasileiro
Onça-pintada no Cerrado brasileiro, ecossistema que compartilha com a Amazônia uma importante biodiversidade (© CC BY-SA 4.0)

Cerca de 70% de todo o agrotóxico utilizado no país é despejado por fazendeiros latifundiários sobre o bioma Cerrado, savana típica do Brasil e que vem sendo devastada pelo agro para o plantio de commodities. O Maranhão está em uma zona de transição entre a Amazônia e o Cerrado, o que torna o estado duplamente ameaçado pelas destruições do agronegócio exportador. Seja pela destruição das florestas e do Cerrado para dar lugar aos monocultivos, seja pela exaustão das águas subterrâneas do Cerrado – conhecido como o berço das águas por concentrar as principais nascentes do país – na irrigação das lavouras.

Para ajudar aqueles que defendem a Amazônia e o Cerrado, Salve a Floresta tornou-se parceira da Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA) em 2025, e desde então vem apoiando a rede com doações em uma frente fundamental: a luta contra o uso intensivo e abusivo dos pesticidas no Maranhão.

Seis mulheres de organizações parceiras de Salve a Floresta no Brasil
Ariana Gomes (terceira da esquerda à direita), da RAMA, juntamente com membros de outras organizações (© Rogério Albuquerque/ RAMA)

Esta é, precisamente, a agenda de trabalho da RAMA desde 1998. Formada por mais de 20 organizações do Maranhão, no nordeste brasileiro, a rede procura preservar e valorizar os modos de vida dos povos da floresta na Amazônia e no Cerrado maranhense. A Rama atua nos campos da formação, da pesquisa e da incidência jurídica e política para garantir que os agricultores familiares possam permanecer produzindo comida de verdade em seus territórios tradicionais.

Frasco plástico branco vazio, com o nome do veneno Abacus escrito
O uso de pesticidas nas culturas é muito prejudicial para a agricultura tradicional e a agroecologia (© Rogério Albuquerque/Arquivos RAMA)

Porque uma das coisas que está ficando cada vez mais difícil no Brasil, seja na Amazônia ou no Cerrado, é o cultivo de alimentos de verdade, de alimentos que brotam da terra a partir de sementes não modificadas, sem o uso de agrotóxicos e de fertilizantes químicos. E isso tem acontecido porque o agronegócio exportador tem avançado com plantios de soja, milho, eucalipto e outras commodities sobre as terras de povos e comunidades tradicionais e de agricultores familiares, que são os que plantam comida de verdade no país e que abastecem as feiras populares e centros de distribuição de alimentos.

Uma mulher, com uma garrafa na mão para coletar amostras de água, chamou a atenção de alguns jovens
Jovens aprendendo a coletar amostras de água para analisar a presença de agrotóxicos (© Rogério Albuquerque/Arquivos RAMA)

Responsabilizar quem viola direitos

Além de tomarem as terras dos povos tradicionais por meio de falsificação de documentos, disputas judiciais fraudulentas e até com violentos ataques às comunidades usando armas de fogo e provocando incêndios criminosos, os fazendeiros também têm contaminado os plantios orgânicos das famílias despejando veneno sobre eles com aviões e drones.

Outra forma de atuação da RAMA apoiada por Salve a Floresta é a produção e divulgação de dados sobre contaminação das águas de territórios tradicionais com o veneno do agronegócio, e também sobre o ataques de fazendeiros contra comunidades por meio da pulverização de pesticidas com avião e drone. Com os dados em mãos, a rede faz denúncias formais contra os responsáveis pelas violações de direitos, atuando junto ao Ministério Público do Maranhão. A RAMA também tem acionado os sistemas internacionais de justiça, como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), para denunciar a violação de direitos no estado, incluindo a perseguição às defensoras e defensores desses direitos. 

Leis municipais contra o veneno que vem do céu

Não existe milagre para frear e reverter essa violenta expansão de monocultivos de grãos banhados em pesticidas. Por um lado, é preciso fortalecer a produção agroecológica, que combina a produção de alimentos e a preservação das florestas e das águas. Esse fortalecimento se dá com políticas públicas federais, estaduais e municipais que garantam que os povos e comunidades tradicionais tenham suas terras tituladas, que tenham acesso a recursos financeiros e a programas públicos que estimulem a produção e distribuição dos seus alimentos. Por outro lado, são necessárias leis que proíbam a pulverização aérea de veneno, além de denúncia e punição legal para os fazendeiros que envenenam as comunidades. 

Avião despeja agrotóxicos em monocultivo no Maranhão
Pulverização aérea de veneno sobre monocultivos de grãos contamina roças da agricultura familiar e as comunidades tradicionais (© H3000)

Membros da RAMA têm trabalhado intensamente na discussão pública sobre a criação de leis municipais que proíbam a pulverização aérea de agrotóxicos, seja por avião ou drone. As atividades incluem formações públicas e debates sobre a importância dessas leis, que enfrentam forte oposição dos legislativos locais porque não raro, vereadores e deputados são também fazendeiros que fazem uso abusivo do veneno em suas lavouras e sobre as comunidades tradicionais. 

O Maranhão tem hoje 12 municípios com leis municipais em vigor que proíbem a pulverização aérea de agrotóxicos visando à proteção da saúde, da água e dos territórios, como reação ao avanço descontrolado do veneno sobre as comunidades.

 Ariana Gomes, secretária-executiva da RAMA

No entanto, essa disputa segue aberta, pois há projetos e posições contrárias tramitando em diferentes instâncias, o que mantém a pressão política sobre os municípios e sobre o próprio estado.

Nos últimos anos, a RAMA tem sofrido reiteradas perseguições e ameaças jurídicas de pessoas ligadas ao agronegócio – desde fazendeiros a organizações de classe – que procuram, por meio de processos judiciais, silenciar seus membros e paralizar suas atividades. Até este momento, a RAMA saiu vitoriosa de todos os processos sofridos, e continua realizando seu trabalho de defesa e promoção da agroecologia sem recuar. 

As vitórias reafirmam que denunciar crimes ambientais é um direito legítimo, e que tentativas de calar vozes que protegem as comunidades e o meio ambiente não encontrarão respaldo no Judiciário

Diogo Cabral,  advogado popular e assessor jurídico da RAMA

Um grupo de pessoas com faixas e logotipos das organizações que atuam na Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA)
Membros da Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA) (© Rogério Albuquerque/Arquivos RAMA)

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