Quem resiste, é assassinado: Indígenas e ambientalistas ameaçados

Retrato do líder indígena Sarapo Ka'apor com cocar Foto do líder indígena Sarapo Kaapor, assassinado em 2022 no Brasil (© Andrew Johnson) Mulheres indígenas, crianças e adolescentes em refeição comunitária em oca aberta Dia-a-dia em uma aldeia indígena Kaapor na TI Alto Turiaçu, no estado do Maranhão, no Brasil (© RdR/ Klaus Schenck)

16 de set. de 2023

Nosso consumo de matérias primas agrícolas, metais, minerais e madeira tem conseqüências graves para as pessoas no Sul Global: 177 pessoas, no mínimo, foram assassinadas em 2022 somente por terem se engajado na luta por seus direitos à terra e pela conservação da natureza. Mais de 1/3 dessas vítimas era indígena, dentre eles, o nosso parceiro no Brasil, Sarapo Kaapor.

Sob o título “Standing firm“, o que signfica algo como “continuar firme“, a organização americano-britânica Global Witness publicou seu Relatório Anual sobre a ameaça e a matança, em escala mundial, de indígenas, ambientalistas e defensores de direitos humanos.

Conforme o relatório, foram assassinados no ano de 2022, em escala global, no mínimo, 177 pessoas, sendo que mais de 1/3 das vítimas (64 pessoas) eram indígenas.

O foco da violência, tal como nos anos anteriores, continua sendo a América Latina, com a Colômbia no topo (60 vítimas), seguida pelo Brasil (34), México (31) e Honduras (14), bem como as Filipinas (14), na Ásia.

Os números apresentados pela Global Witness representam apenas um quadro incompleto da dimensão do assassinado de ambientalistas no mundo inteiro em 2022, declara a ONG americano-britânica no Relatório:

“Temos a plena consciência de que os nomes de muitos defensores e defensoras da natureza que foram assassinados no ano passado possivelmente não são conhecidos, e que talvez jamais venhamos a saber quantas outras pessoas sacrificaram suas vidas pela proteção de nosso planeta.”

Assim é que a estatística da Global Witness é apenas a ponta do iceberg, conforme documentado pelo Conselho Indígena CIMI em seu detalhado “Relatório - Violência contra os Povos Indígenas do Brasil - Dados de 2022“. Só no Brasil, o CIMI alista 180 assassinatos de indígenas em virtude de conflitos torno de matérias-primas e da terra.

A vida de todas essas pessoas foi tirada com violência - e mais gente ainda foi ameaçada, espancada, sequestrada, expulsa ou criminalizada -apenas por terem se engajado ativamente pela proteção de sua terra, seu meio-ambiente e das pessoas nelas viventes. Os executores dos crimes e os mandantes por trás deles - latifundiários inescrupulosos, políticos e firmas - sequer se intimidam com as consequências dos assassínios. Eles sabem que, grosso modo, os crimes não são examinados pelas autoridades, que nem os investiga, nem os leva aos tribunais.

Uma das vítimas foi o líder indígena Sarapo Kaapor. Como parceiro de nossa associação, ele liderava seu povo na defesa do território oficialmente reconhecido como dos Kaapor. Em uma área de 531.000 hectares, o Território Alto Turiaçu alberga uma biodiversidade enorme, sendo que muitas espécies de animais e plantas só ocorrem nesse território (espécies endêmicas).

Com seu modo de vida pró-natureza, os Kaapor conservaram a última grande área de floresta no nordeste da Amazônia. Pecuaristas, produtores de soja, madeireiras e mineradoras ameaçam enormemente os Kaapor, no afã de se apropriarem de suas terras e matérias-primas. Também o narcotráfico investe nessas atividades, com o fim de lavar o dinheiro sujo das drogas.

Tal como no caso dos Kaapor, no mais das vezes, os assassinatos estão ligados à expansão da agroindústria, da mineração e da extração de madeira. Não raro, os responsáveis pelos crimes têm “costas quentes”. O CIMI escreve, no Relatório, que o governo de Jair Bolsonaro, que não foi reeleito em 2022 - e que foi apoiado por uma parte da Justiça, do Parlamento e por outros setores - via os crimes contra as minorias e a natureza com algo necessário para o crescimento econômico.

“Salve a Floresta” apóia os Kaapor já há três anos com doações, trabalhos de campanha e de rede. Para ajudar a esclarecer o assassinato, a Associação, juntamente com os Kaapor, ajustou a petição  “Os Kaapor precisam de nossa ajuda“, da qual quase 80 mil pessoas já participaram.


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