Roubando terra com veneno e violência
: O foco da edição nº 1/26 da nossa revista "Regenwald Report" é o Brasil e este é o sexto - e penúltimo - artigo da série. No nordeste do Brasil a agroindústria continua expandindo cada vez o seu espaço. O que isso significa para o povo lá vivente e para a natureza nós documentamos junto com a Comissão Pastoral da Terra.
“As famílias de agricultores vem vivendo há décadas nestas áreas, mas não possuem título de propriedade algum. As autoridades procrastinam e impedem o reconhecimento de seus direitos à terra para favorecer o agronegócio”, diz a Antonia Calixto, da Comissão Pastoral da Terra (CPT).
O nosso colaborador, Felipe Duran, acompanhou os nossos parceiros da CPF ao longo de uma semana. O projeto é parte de uma parceria de trabalho a longo prazo, visando ao reconhecimento dos direitos à terra. No nordeste do Brasil, há muitos pequenos agricultores que vivem de modo tradicional, em harmonia com a natureza. Eles praticam agricultura de subsistência, utilizam os recursos naturais disponíveis, como o babaçú e pescam peixes nos rios.
Nas comunidades de Mirados e Timbiras, as pessoas fazem relatos de roubo de terras sistemático. Latifundiários e agroempresas apropriam-se dos terrenos das comunidades fazendo uso de documentos falsificados. Eles trabalham em conluio com tabeliães, oficiais de Registros de Imóveis, juízes e políticos, os quais tornam o roubo de terras possível por meio de maracutaias para registrar a transferência de propriedades para os seus nomes.
Para liberar lugar às monoculturas de soja voltadas para a exportação, as matas são derrubadas. A madeira das árvores é vendida antes que os tratores de esteira e o fogo cheguem para liquidar de vez com a vegetação remanescente. “Esses lenhadores armados estão derrubando tudo, já há três semanas. Fizemos uma denúncia junto às autoridades ambientais e B.O. na polícia. Eles só deram uma passadinha aqui, viram os caminhões cheios de toras e motoserras, mas nada fizeram”, declara uma agricultora, cujo nome não devemos declarar. Por causa de ameaças, ela foi acolhida por um programa de proteção.
Muitos pesticidas são produzidos por empresas europeias.
Os moradores relatam serem perseguidos e expulsos de suas terras mediante violência, vale dizer, incêndios criminosos, ataques à mão-armada e até mesmo homicídios. Volta-e-meia eles falam de pulverização aérea de pesticidas, de uma guerra química que está sendo usada contra eles com o objetivo de fazer da vida deles um inferno, caso eles optem por permanecer nos territórios por eles tradicionalmente ocupados. “Estamos sofrendo sob esse veneno e já perdemos por causa disso praticamente toda a nossa colheita de legumes. Os pesticidas destroem não apenas as plantas, também nós e as nossas crianças ficamos doentes”, diz a Maria das Graças Gama. A água é contaminada, os peixes são mortos e as pessoas fazem relatos de dores de cabeça crônicas, enjôo, vômito, dificuldade de respiração e problemas dermatológicos com feridas dolorosas que nunca cicatrizam na pele. Muitos dos produtos lançados são produzidos por empresas europeias, e, por causa de sua periculosidade, são proibidos na Europa. O governo brasileiro vem fomentando, já há muitos anos, a expansão da agroindústria nos estados nordestinos do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. A soja e a carne bovina, juntamente com o petróleo e o minério de ferro, são os produtos de exportação mais importantes do Brasil, tanto em termos de quantidade como em termos de valor econômico. É para isso que os ecossistemas naturais - como o cerrado e a caatinga - são devastados. De acordo com os dados oficiais, no ano de 2024 foram desmatados nesses estados um total de 8.030 km2, o que corresponde ao dobro do que foi desmatado na Amazônia, que é muito maior.
A violência e as derrubadas estão em correlação com o consumo europeu. Em 2025, a Europa importou 25 milhões de toneladas de soja e soja granulada, sendo que a metade vem do Brasil.
Continuamos a fazer oposição contra o Acordo Mercosul-UE
O acordo de livre-comércio assinado pela Comissão Europeia em 17-01-2026 com os estados do MERCOSUL (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) continua controverso. O Parlamento Europeu remeteu o Acordo para exame do Tribunal de Justiça da União Europeia. Mesmo assim, o Acordo já entrou em vigor provisoriamente, no dia 1º de maio de 2026, depois de os parlamentos da Argentina, do Brasil, do Paraguai e do Uruguai terem-no aprovado.
Apesar disso, continua sendo necessário que todos os 26 Parlamentos internos dos países-membros da UE autorizem o Acordo para que ele entre definitivamente em vigor e como um todo. O Acordo contém medidas de proteção ao ambiente, ao clima e à proteção dos direitos humanos. O interesse da indústria europeia está concentrado, sobretudo, na importação de matérias-primas agrárias e de mineração, bem como em vender carros, máquinas e produtos químicos para os sul-americanos. A esperança dos estados do MERCORSUL é o aumento do faturamento de suas empresas com a venda de produtos processados para a UE, bem como investimentos europeus. Existe o receio de que, por causa desse Acordo, venham a ser derrubados, adicionalmente, 7.000 km2 de floresta. A indústria brasileira teme ir à ruína por conta da concorrência de produtos europeus mais competitivos. Agricultores europeus, por sua vez, temem concorrência desleal, ao passo que os órgãos de proteção ao consumidor na Europa receiam que alimentos com níveis de pesticidas superiores aos permitidos venham parar nas prateleiras.