Exposição fotográfica constrói memória e disputa a história no campo maranhense
Brasil: Comissão Pastoral da Terra (CPT) expõe fotos históricas da luta pela terra no Maranhão. Jovens de povos e comunidades tradicionais complementaram acervo da organização com imagens atuais dos modos de vida no campo.
As disputas no campo no Brasil não são apenas por terra e território. São também pelo protagonismo dos povos e comunidades tradicionais em sua própria história, por poder contá-la com suas próprias palavras, enfoques e imagens. Por séculos – e ainda hoje – a história dos conflitos fundiários no Brasil tem sido contada por quem provoca esses conflitos: grandes latifundiários, que não raro são políticos, e que não raro também são donos de emissoras de TV, rádio, revistas e jornais de grande circulação. Assim, fica fácil dizer, usando as tintas da imprensa, que quem invade e rouba terras é o outro, e que o agronegócio exportador é sustentável e que alimenta o mundo.
Há mais de 50 anos, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) acompanha, apoia e registra as lutas dos povos e comunidades tradicionais por terra e território no país, e a perpetuação dos seus modos ancestrais de se relacionar com a terra, as águas e florestas. Os registros estão em relatórios, notícias, pesquisas, artigos e imagens, algumas delas ainda em preto e branco. Na disputa por significados, as imagens, mais do que as palavras, são poderosas em esculpir na mente um imaginário formado por cenários e rostos. Ainda que sejam registros de fragmentos de ações em um tempo e espaço limitados e mediados pelos olhos de quem as capturou, as fotografias estabelecem um diálogo direto com quem as vê.
Ciente desse poder de conexão instantânea das imagens e de sua capacidade de construir memória e história, a CPT Maranhão realizou, entre os dias 9 e 19 de junho desse ano, a exposição fotográfica “Teimosia de Viver”, na Galeria do Centro de Referência Azulejar, do Instituto Federal do Maranhão (IFMA), no centro histórico de São Luís, capital maranhense. Dividida entre imagens históricas das lutas no campo registradas pela CPT e fotos recentes do dia a dia nas aldeias, quilombos, assentamentos e comunidades tradicionais do Maranhão, a exposição trouxe mais de 80 fotos revelando o cotidiano dos povos e comunidades tradicionais de diferentes municípios do estado.
Cenas da lida diária com o plantio e a colheita, de tradições culturais e religiosas e do cotidiano de lazer e trabalho compuseram os registros presentes da exposição. A curadoria do evento recebeu mais de 200 fotos em mais de 40 inscrições ao longo dos meses de fevereiro e março de 2026, quando foi aberto o período de inscrições para povos e comunidades do Maranhão enviarem seus trabalhos. Já o acervo histórico da CPT no estado se fez presente na exposição com uma dezena de imagens emblemáticas da luta e resistência dos povos tradicionais do Maranhão registradas ao longo das décadas.
“Por meio desta exposição, buscamos evidenciar não apenas os desafios enfrentados por essas comunidades, mas, sobretudo, a força, a dignidade e a profunda relação que eles têm com a vida. São povos que resistem, diariamente, na defesa da terra, da água, das florestas e da mãe natureza”, destacou Raniere Roseira, fotógrafo e agente pastoral da CPT Maranhão.
A exposição ficou dez dias em cartaz, e recebeu a visita de centenas de pessoas. Agora ela ganha uma versão itinerante. Entre os dias 2 e 6 de julho de 2026 foi exibida durante a realização da 17a edição do Encontrão da Teia de Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão, no município de Matões, interior do estado. Entre os dias 3 e 21 de novembro estará na cidade de Codó, no campus da Universidade Federal do Maranhão. Salve a Floresta, parceira da CPT no Maranhão há seis anos, apoiou a realização da exposição juntamente com Grassroots International, Misereor, IFMA e seu Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (NEABI) e o Ministério Público do Trabalho (MPT-MA) da 16a região.
Veja a seguir uma seleção de fotos que fizeram parte da exposição “Teimosia de Viver”, da CPT Maranhão.
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