Entrando em ação por pessoas e por gorilas
Será que a indústria petrolífera logo, logo vai contaminar a bacia do Congo? Se der certo o plano do governo em Kinshasa de conceder diversas concessões, as florestas úmidas com seus gorilas no Parque Nacional do Virunga estarão em perigo. A nossa organização parceira - a Réseau CREF - está mobilizando a população contra isso.
Visão geral do projeto
Tema do projetoAnimais
Objetivo do projeto Proteção da bacia do Congo contra projetos de petróleo e gás
Atividades Trabalho de esclarecimento por meio de workshops e teatro
Na pequena cidade de Kanyabayonga está sendo encenado o seguinte drama: A exploração do petróleo está trazendo desgraça e necessidade sobre a região. As águas estão contaminadas e a fonte de sustento das pessoas e dos animais são destruídas. Por sorte, por enquanto esse é apenas o cenário de uma peça de teatro encenada por um grupo de teatro itinerante.
Isso, porém, poderá se tornar realidade, caso o governo da República Democrática do Congo, de fato, consiga atrair petroleiras para a região. Em julho de 2022, o governo congolês divulgou edital de leilão visando a concessão de 27 campos de petróleo. Vários deles encontram-se nos sensíveis ecossistemas da Cuvette Centrale, o maior complexo de turfa em zona tropical. Nove deles estão em área de interseção com áreas protegidas - dentre os quais, o famoso Parque Nacional do Virunga.
Os últimos gorilas-da-montanha
É lá que vivem, em encostas de vários vulcões, alguns gorilas-da-montanha, e eles estão ameaçados de extinção. Alguns grupos estão acostumados a ter gente por perto. Em tempos de paz, eles atraem turistas de alto poder aquisitivo. Enquanto para estes últimos, há acomodações suntuosas, a população das aldeias vizinhas vive na pobreza. Do dinheiro que os turistas gastam ao vivenciar a natureza, fica muito pouco para os locais. Estes acabam vivenciando o Parque Nacional, no mais das vezes, como uma limitação, porquanto lá, eles são proibidos de coletar lenha. As falsas promessas do petrobusiness e do crescimento econômico poderiam, por isso, encontrar um solo frutífero.
No entanto, o Parque Nacional está carregado de conflitos violentos. Na área de proteção, há milícias e caçadores ilegais ativos, e não raro acontecem tiroteios com rangers fortemente armados. Além disso, a população reclama de ataques e violações de direitos humanos por parte dos guardas-parque. Agora, para piorar, está chegando a ameaça ecológica.
A nossa parceira Réseau CREF
É verdade que, em outubro de 2024, o governo, repentinamente, suspendeu o leilão dos 27 campos de petróleo. No entanto, os protetores do meio-ambiente não se deixam iludir com isso. O fato de o governo, nesse meio-tempo, ter desistido, seria “apenas a vitória em uma batalha de uma longa luta”, disse o Presidente da Réseau CREF, François Biloko. O governo, segundo ele, vai continuar firme no objetivo de tirar lucros do petróleo e do gás. E realmente: pouco tempo depois da suspensão, o governo iniciou, de novo, a concessão das licenças.
Mas a Réseau CREF está preparada para a luta. Os ativistas são parceiros e parceiras de “Salve a Floresta” já desde 2018. Eles tem bastante experiência em mostrar para a população os perigos existentes por detrás do petronegócio. Em especial, no que se refere aos campos de petróleo das províncias de Kivu do Norte e Ituri. Esses ambientalistas já tinham participado, em 2014, da ação de colocar a petroleira SOCO para fora da área do Virunga.
Para sensibilizar as pessoas sobre os perigos do petronegócio, a Réseau CREF organiza workshops regularmente. Durante uma viagem nossa para o Congo, no final de 2021 nós acompanhamos a equipe na pequena cidade de Kanyabayonga. No primeiro andar de um prédio, 25 representantes de pequenas organizações haviam se reunido. Algumas, por exemplo, davam suporte aos pescadores do entorno do Lago Eduardo, outros se engajam pela proteção dos direitos de adolescentes ou pequenos agricultores.
Clarice Butsapu, funcionária da Réseau CREF, faz advertências muito claras sobre as falsas promessas da indústria petrolífera. “Gente pobre não vê motivo para se engajar na proteção da natureza e do Parque Nacional, quando a impressão deles é que o parque é co-responsável por sua pobreza.”
Para conseguir acesso direto à população, um grupo de teatro itinerante, contratado pela Réseau CREF, vai fazendo performances na Província de Kivu do Norte. “A peça de teatro motiva as pessoas a se engajar ativamente na proteção do meio-ambiente e dos seus direitos”, diz Biloko. Exibição de filmes e programas de rádio também estão no repertório da organização. Mulyaboss e o DJ Shukra, músicos muito conhecidos na região, compuseram uma canção especificamente para essa campanha. “Eles tratam de assuntos complexos em linguagem simples”, diz a Clarice Butsapu.
Trabalho sob condições difíceis
A vida das pessoas e o trabalho da Réseau CREF é dificultado pela catastrófica situação de segurança no leste da República Democrática. No início de 2025, a milícia M23 conquistou amplas áreas das Províncias do Norte e do Sul de Kivu, inclusive as capitais provinciais, Goma e Bukavu e do Parque Nacional do Virunga.
E como se isso não fosse suficiente, o vulcão Nyiragongo está ameaçando, em especial, os habiitantes de Goma. Quando ele entrou em erupção pela última vez, no dia 22 de maio de 2021, destruindo partes da cidade de milhões de habitantes, “Salve a Floresta” deu a eles suporte financeiro e ficou do lado dos ativistas da Réseau CREF.
Se o petronegócio, um dia, vai realmente explorar petróleo na bacia do Congo e se o drama da peça de teatro vai virar realidade, não é previsível. Mas os ativistas da Réseau CREF continuarão, por isso mesmo, indo para lugares como Kanyabayonga para, assim, informar a população e reiterar a sua advertência. Isso com o projetor na mala e a companhia de teatro a reboque.