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Uma pessoa vestindo roupa de proteção contra incêndio apaga as chamas em uma vegetação com uma mangueira de água
As brigadas oficiais de combate a incêndios nem sempre dispõem de recursos suficientes para atender a todas as emergências (© Guto Dauster-IBAMA)

Anatomia de um incêndio

4 de nov. de 2026Brasil: A dinâmica de um incêndio criminoso que acontece em um território tradicional da Amazônia, do Cerrado, da Caatinga e do Pantanal brasileiros é muito mais complexa e grave do que podem revelar as fotos das chamas devorando florestas e animais. O fogo criminoso destrói muito mais do que a vegetação e a vida animal – o que já é uma grande tragédia.


Desde o ano passado, nós, de Salve a Floresta, estamos acompanhado de perto e de forma intencional o trabalho da Articulação Agro é Fogo, que atua em diversas frentes no combate a incêndios criminosos.

Nesse acompanhamento, aprendemos o que poderíamos chamar de “anatomia do incêndio”, com as dinâmicas e impactos do fogo sobre os territórios. Entender essa anatomia nos ajuda a seguir direcionando o apoio aos povos afetados pelas chamas.

Prevenir ainda é o foco

Quando a Articulação Agro é Fogo, em parceria com Salve a Floresta, criou o Fundo Aceiro, que disponibiliza recursos diretamente às comunidades afetadas pelo fogo criminoso, o objetivo era focar na prevenção aos incêndios por meio da criação, formação e equipagem de brigadas comunitárias nos territórios tradicionais, e também na recuperação de territórios atravessados pelas chamas.

Mas nós sabemos que agentes do agronegócio exportador sempre encontrarão meios de tentar expulsar as comunidades de seus territórios para tomá-los. Os incêndios criminosos são, além da pulverização com veneno, um dos métodos mais comumente utilizados por eles para esse objetivo. Por isso queremos estar prontos também para atender aos pedidos emergenciais que recebemos à medida que os incêndios avançam.

Garantir recursos para que os povos e comunidades tradicionais da Amazônia, do Cerrado, do Pantanal e da Caatinga façam, com o apoio da Agro é Fogo, a proteção preventiva aos incêndios ou o combate emergencial do fogo é uma estratégia de vida para todo o planeta. 

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A mobilização das brigadas

A primeira reação a um incêndio dentro de um território tradicional é mobilizar as brigadas comunitárias – quando elas existem – ou ligar para os bombeiros, nem sempre possível na zona rural. A precariedade da infraestrutura estatal não disponibiliza bases de socorro em regiões distantes dos grandes centros urbanos. 

Embora as brigadas oficiais dos governos disponham de mais equipamentos para combater as chamas, nem sempre dispõem de combustível para atender aos chamados. Elas são em menor quantidade em relação às brigadas comunitárias, e por isso não chegam a todas as demandas 

Jaqueline Freitas Vaz, secretária-executiva da Articulação Agro é Fogo.

Nós já contamos a história de uma comunidade ribeirinha brejeira no estado do Piauí que ficou sob as chamas por quase cinco dias inteiros até receber a ajuda de bombeiros que vieram de uma cidade a 300 km do incêndio. Não fossem os moradores e seus baldes d’água, a comunidade teria sido totalmente devastada.

No primeiro momento da anatomia do incêndio, as brigadas oficiais ou comunitárias tentam debelar o fogo onde ele está, muitas vezes a quilômetros de distância dos seus locais de moradia. Além do combustível para os veículos que os levarão mais perto das chamas, dos equipamentos de proteção pessoal e das ferramentas para entrar na mata e apagar o fogo – machados, motosserras, assopradores –, os brigadistas também precisam levar alimentos e água para permanecerem no local o tempo necessário para eliminar todos os focos de incêndio. Às vezes são dias de combate, durante os quais os brigadistas permanecem acampados nas matas até debelar a última brasa.

As brigadas comunitárias, apesar de serem em maior número, são muito precárias em termos de equipamentos e ferramentas. Elas só conseguem melhorar sua infraestrutura quando acessam recursos de projetos financiados pela sociedade civil, como é o caso do Fundo Aceiro, que criamos junto com Salve a Floresta e seu apoio.

Fabiana Martins, do povo indígena Gavião, em Belém, em Novembro 2025, apresentando o Manual de Prevenção e Combate aos Incêndios nas Florestas das Comunidades do Cerrado
Fabiana Gavião faz parte de uma brigada comunitária que ajuda a prevenir e apagar incêndios florestais (© Guadalupe Rodriguez)

Combatendo o fogo

Mas nem sempre o fogo está circunscrito a áreas de mata distante das casas. Há situações em que os criminosos escolhem lugares sensíveis das comunidades para incendiar, como as nascentes de rios e córregos que as abastecem com água suas roças e até suas casas. Nesses casos, a destruição é ainda maior, por ser rápida e aumentar o nível de vulnerabilidade dos territórios, que ficam sem as bases elementares de sobrevivência: água e comida. Os incêndios destroem casas, modos de vida, sonhos e a autonomia alimentar das comunidades, além de afetar severamente a saúde física, psicológica e a espiritualidade das pessoas atingidas. Além do impacto humano, as queimadas destroem o patrimônio genético, contaminam as águas e poluem o ar, sendo também um dos principais responsáveis pela seca na Amazônia. É um segundo momento, mais crítico, da anatomia do incêndio, em um contexto de sede e fome.

Além de as nascentes secarem por causa do calor das chamas e eliminação da vegetação, a água que resta nos rios e córregos e que poderiam ser usadas pelas famílias tornam-se impróprias, poluídas com a fuligem dos incêndios. No caso das roças, há relatos de perda total de plantios, com a destruição de árvores frutíferas, legumes, tubérculos, raízes e grãos que deveriam alimentar as famílias por meses e até anos.

Em situações assim, além do combustível para os veículos, dos equipamentos de proteção e ferramentas de combate ao fogo, também são necessários alimentos e água para o pós-combate. E eventualmente, até recursos para reconstruir suas casas e insumos para reestabelecer suas roças.

Em meio à fumaça, um homem combate o incêndio com um abafador, enquanto outro utiliza um pulverizador de água costal

Uma articulação contra os incêndios criminosos na Amazônia brasileira

A Articulação Agro é Fogo apoia na Amazônia, Caatinga, Cerrado e Pantanal a prevenção e combate a incêndio e exerce pressão pública sobre governantes.

Leia mais

Além de ferramentas e equipamentos, cestas básicas e galões de água

Em situações extremas, apontamos um terceiro momento da anatomia do incêndio, quando as comunidades fazem pedidos de emergência focados na compra de galões de água e de cestas básicas de alimentos.

A reconstrução das casas ainda é um tópico à parte, pois muitas das habitações consumidas pelo fogo nos territórios são feitas à maneira tradicional dos povos, com cobertura de palhas da palmeira de coco babaçu, com estrutura de talos da mesma palmeira e preenchimento com barro. Em geral, o fogo que destruiu a casa também destruiu os babaçuais no entorno, eliminando a matéria-prima da construção de novas casas. Assim, a  saída é construir casas de alvenaria, muito mais caras pelo material em si – tijolos, telhas, cimento, areia, brita, ferragens – e pela própria logística de acesso aos materiais, que devem ser comprados nos centros urbanos e transportados aos interiores rurais.

Em meio a essa realidade de prevenção e combate a incêndios, Salve a Floresta e a Articulação Agro é Fogo apoiam os povos e comunidades tradicionais.  Seja fortalecendo brigadas de incêndio comunitárias já existentes, seja na criação de brigadas novas e na equipagem, seja formalizando denúncias contra fazendeiros incendiários e fazendo incidência política e jurídica contra seus crimes.

  1. O nome da Articulação Agro é Fogo é uma releitura, em chave crítica, de um slogan da maior emissora de TV brasileira que, em suas propagandas institucionais favoráveis ao agronegócio, cunhou o slogan: "Agro é Tech, Agro é Pop, Agro é Tudo". Assim, a Articulação Agro é Fogo apropria-se de parte do slogan para denunciar o que significa o agro nos territórios: fogo, incêndio, destruição.

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